Conto: Obrigado
Meu editor me ligou. Atendi-o de primeira, porque não consegui pôr em prática a pantomima do autor desinteressado. O livro foi um fracasso, ele disse. Mas me orgulho dele, ele disse, e de você. Eu respondi antes de desligar.
“Obrigado” é uma palavra terrível para se dizer nesses momentos. Foneticamente, digo. O b e o r quebram, partem, a palavra ao meio. É diferente de quando agradecemos em euforia, esticando a palavra na boca aberta. Quando agradecemos o lamento, na hora do luto, por exemplo, é preferível menear a cabeça e manter os lábios fechados.
E os anglófonos não saem na frente: tão mau quanto dizer obrigado é colocar a língua entre os incisivos para cuspir aquele sibilante thank you. Não tão desajeitados (como em todo o resto, é verdade), vêm os franceses, mas ainda assim não me sai da cabeça a potencial anedota em dizer merci beaucoup como resposta a um “sinto muito”.
Dos idiomas que já traduzi, o único que mantém a gravitas do momento com o agradecimento pela preocupação é o alemão: danke schön. Resoluto, sério, fechado. E nem me venham com o grazie ou o gracias (pelo menos não o que emula o silvo de uma cobra no c, característico dos espanhois), não, não, não me venham, porque me sinto um turista inglês acima do peso, rosado, de chapéu, a agradecer uma caipirinha na areia de Copacabana.
É como se fosse uma impossibilidade física ser genuíno ao dizer grazie ou gracias.
Por isso eu respondi antes de desligar com um danke schön. Meu editor riu antes de se despedir. Vamos ver como vão continuar as vendas depois do feriado, disse ele. Ok, respondi.
Tinha em mente que passaria por maus-bocados ao lançar meu segundo livro.
Até então eu era aquele escritor jovem que emplacou aos vinte e dois uma obra para a posteridade. Um livro que haveria de ser lido mesmo quando deixassem de ler Joyce, chegaram a me dizer. Ainda o era, é verdade, mas muito menos do que Finnegans Wake (e esse, de fato, ninguém lê).
Por um tempo as vendas do livro me sustentaram. Pude me dedicar a escrever, ofício a que me dedicava, antes, nas raras e turbulentas horas vagas entre o emprego e a faculdade. Sempre à base da inspiração momentânea, na voragem fugaz de só ímpeto que explodisse como pólvora.
Finalmente, deixei o meu emprego e terminei a faculdade com louvor e mérito.
Fui o mais jovem colunista do jornal mais lido do país. É verdade: já era um tempo em que ninguém lia mais jornal nenhum. Ainda assim sorvi dessa ascensão como poderia sorver. Dei entrevistas, fui blasé, cruzava as pernas, comecei a fumar, usava gola alta, tornei-me o mais encarnado clichê literário.
No dia em que fui à primeira apresentação do livro em larga escala, com uma fila de mais de cem pessoas carregando a capa rubra embaixo do braço como um texto sagrado, voltei ao meu recém-financiado apartamento e acendi uma dezena de velas. Um incenso. Coloquei na vitrola Górecki e decidi escrever o meu segundo romance. Meu editor havia me alertado quando viu as vendas do livro: escreva, escreva, escreva agora, se não vai ser engolido pelo tamanho do seu sucesso.
Comecei, digitei as primeiras palavras e apaguei em seguida. Dormi na confortável poltrona ainda plastificada com uma televisão de fundo. No dia seguinte acordei e, sem escovar os dentes nem lavar o rosto, escrevi uma coluna num só tiro. Três mil caracteres sobre a tragédia de um avião em Brasília. Coluna preguiçosa, crônica-ensaio proveniente do mais profundo e lânguido cumprimento de um dever.
Você vai escrever crônicas, ensaios, o quê, me perguntou a editora do jornal. Eu vou escrever, e só, disse eu, seguro de que dava uma resposta vanguardista e corajosa. A bravura de quem não dá a mínima para os gêneros literários. Ela deu uma risadinha. Certamente não era a primeira vez que ouvia aquilo.
E a risadinha dela serviu para me aguçar o arrojo. Perguntei se ela queria jantar. Quando, ela perguntou. Hoje. Hoje. Hoje. E passei os cinco anos seguintes dessa ligação com ela, ainda que vinte e três anos mais velha do que eu. Não apenas nós dois, mas também com ela, devo dizer.
Nessa época eu tinha de correr ao círculo mais íntimo da vida, onde somos queimados pela intensidade e depois nos arrependemos do que fizemos para ali estar. Então nessa época estive com ela, mas também estive com ele, e com ela também e com outra ela, e com outro ele, e com quantos eles e elas eu pude encontrar no caminho e de quantos eles e elas que eu pude arrancar um pouco do coração e dar um pouco do meu. Até nada sobrar.
Pouco tempo depois as entrevistas foram rareando. É normal, eu pensava. E subia o tom das minhas provocações semanais. Cada vez mais preguiçoso, cada vez mais ousado.
Logo o jornal passou por reestruturação. Ela foi mandada embora, e eu também.
Fora do jornal, decidi que era tempo de prolongar os meus estudos e de, quem sabe, aproveitar um pouco mais do tempo livre que as vendas estáveis do meu livro me davam.
É verdade, tive de reduzir despesas.
Vendi o apartamento e financiei um menor, mais distante. Ali eu me encontraria mais uma vez. Já não era mais o menino prodígio da literatura e tinha de voltar ao trabalho duro, tinha consciência disso.
Mas a ciranda vertiginosa pela qual eu vorazmente saltitava me rasgava involuntariamente, imparável e feroz. Porque por mais que eu dissesse que iam e vinham, como eu disse numa das mais famosas entrevistas, não passava de um demagogo. Eram pessoas que carregavam e traziam suas vidas em forma de prazer (ou ao menos a tentativa de alcançá-lo). E levavam um bocado da minha.
Hoje, tenho um sonho recorrente. Sonho com vários rostos e choro. Acordo com o rosto morno e as almofadas molhadas. Rostos dos quais não lembro o nome. Escrevo hipóteses no caderno de cabeceira, desenho rascunhos boçais das pessoas. E não sei, não me lembro, por mais que me esforce.
Numa dessas idas e vindas de mais um corpo da moda, encantado pelas minhas letras e erudição estanques (passei anos sem ler um livro sequer), despertei sem saber quem dormia ao meu lado. E ela estava na porta. Ela me viu. Ela vivia comigo, mas era para estar viajando. Ela me esperou despertar, desfazer aquela minha nuvem de incerteza ao abrir os olhos, e, com os olhos fixos em mim, disse que ia embora. E foi. E quando quem estava do meu lado abriu os olhos eu já não estava mais no apartamento. É hora, pensei eu. É hora de voltar ao ponto de origem, ao grau-zero, onde eu possa sentir a terra entre os dedos dos pés.
Decidi voltar para o interior, para perto do meu pai, para a casa dele, ainda que ele já não existisse há muito tempo. Vendi o apartamento e fiquei sem dívidas. Voltei para a casa da família. Comecei a cuidar da terra com as próprias mãos, algo que nunca havia feito. E assim levei a vida pelos anos que se passaram, escoando aos poucos os insistentes que vinham atrás de mim, enquanto ao mesmo tempo eu sofria uma solidão autoinfligida.
Durante uma abertura de céu, a persona-escritor-isolado-decadente voltou à moda e fez o telefone tocar insistentemente. Eu concedia as entrevistas, eu dizia verdadeiramente o que me passava pelo espírito. É hora de voltar à escrita, perguntavam. Não, dizia eu. É época dos morangos, eu respondia.
Com o tempo até essa figura curiosa, animal exótico, deixou de interessar.
E eu me acostumei com a ausência de tudo. É verdade que o livro ainda me dava o meu sustento e que eu não poderia viver do mambembe cultivo de terra que eu tinha. E eu aceitava todos os trabalhos que ingenuamente as pessoas me mandavam de tradução. Não fosse isso e talvez a minha vida tivesse caminhado até o fim nessa rotina paroquial que passou a me agradar.
É verdade que nunca tive coragem de desligar o telefone e de me isolar de fato do mundo. Dizia para mim que nenhum homem é uma ilha e me via satisfeito nessa máxima das máximas do máximo lugar-comum.
Vez ou outra ainda sentia a necessidade dos corpos, mas a busca tornara-se cada vez mais trabalhosa. Até que também deixei de senti-la. Pensava que, quem sabe, em breve também não sentisse fome, e, emagrecendo, me encolhesse tanto a ponto de me tornar invisível.
Na senda dessa dissipação, certo dia o telefone tocou. Eu estava no banho, mas fazia tanto tempo que o telefone não tocava que eu deixei o chuveiro ligado e um rastro molhado até o aparelho. Sim, disse. Sim, continuei, recitando um mantra. Era da editora. Chegamos ao fim da nona edição e não havia demanda para uma nova. Certamente eu já havia percebido o rareamento dos depósitos. Em outras palavras, o livro deixaria de ser impresso, e eu condenado àquelas palavras de outrora, a circular apenas entre as mãos emboloradas que estapeavam lombadas nas estantes dos sebos.
Fui até a minha agenda e busquei o número do editor. Quem há quase duas décadas havia me alertado para o perigo da submissão ao sucesso. Ele saberia, com toda a certeza. Não poderia ligar para ele agora e dizer, simplesmente, “olha, comecei a escrever um segundo livro”. Decidi que esperaria. Ele haveria de me ligar. Alguém haveria de me ligar.
E sentei na mesa da cozinha, toalha rendada embolada ao lado e comecei a escrever com uma caligrafia de menino o que seria o projeto do meu segundo livro. Abri as estantes do quarto do meu pai e dentre a prataria encontrei uma Bíblia e uma série de contos infantis que lembro de ouvir na voz da mãe dele. Desenhei setas e escrevi nomes de pessoas que não existiam, Sandro, Renê, Carol, Nadir, Ivo, Roberta, Marcos etc. Comecei a desenhar rostos e flechas ligando-os uns aos outros. Todas elas convergiam, apontando para a base do papel, para mim, como acusações disparadas, dardos afiados. E assim permaneci durante semanas, escrevendo pensamentos soltos, diários de alguém que eu tinha certeza de que não era eu, a se relacionar com pessoas que tenho certeza de que nunca me relacionei. E antes de dormir, todos os dias, lia um dos livros da coleção de livros infantis.
Quando meu editor me ligou, estava dormindo na sala, num sofá de couro marrom que era da época do meu pai. Ele, o editor, queria saber como eu estava. Se poderia me enviar um trabalho de tradução. Era o primeiro em anos, com certeza podia, de quem seria, perguntei. E ele respondeu que seria meu. Como assim, perguntei. Seu livro, ele disse, querem em inglês. Posso, mas antes preciso te dizer que voltei a escrever, eu disse. Que boa notícia, ele respondeu. O quê, perguntou depois de um momento. Um romance, eu disse. Primeiro a tradução, depois o romance, ele disse. Primeiro o romance, depois a tradução, eu respondi. Ele riu. Combinado, eu perguntei, e continuei: eu não percebi quando, disse eu, mas de repente o meu corpo já ninguém mais deseja. É um saco de ossos, um amontoado de marcas amareladas e nódoas passadas, um cinzeiro que até eu desprezo. E ninguém se interessa pelo que tenho a dizer, aliás. E eu sinto que vou definhar, lentamente, numa tortura caleidoscópica de nostalgia, onde vejo quem eu poderia ter sido, quem eu fui por um breve e belo momento e quem eu me tornei. Mas quanto ao que eu tenho para dizer... isso eu não desprezo, eu desejo. Combinado, ele respondeu. É época dos morangos, perguntou. Obrigado, eu disse.
Desliguei e voltei ao caderno.
Comecei a escrever: “Meu editor me ligou. Atendi-o de primeira, porque não consegui pôr em prática a pantomima do autor desinteressado. O livro foi um fracasso, ele disse. Mas me orgulho dele, ele disse, e de você. Danke schön, eu respondi. Ele riu. Vamos ver como vão continuar as vendas depois do feriado, disse ele. Ok, respondi.”
Rabisquei os rostos, finalmente. Joguei fora as setas pontadas ao meu ventre.

